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                    PRODUTO TÉCNICO-TECNOLÓGICO – RELATÓRIO TÉCNICO CONCLUSIVO
CIÊNCIAS COMPORTAMENTAIS NO SETOR PÚBLICO: EVIDÊNCIAS SOBRE A
TEORIA DOS PROSPECTOS E O IMPACTO DO DISSIDENTE ESTRATÉGICO NA
GOVERNANÇA
RESUMO

O alicerce da Teoria Econômica é fundamentado na racionalidade do ser humano.
No entanto, as ciências comportamentais mostram que o indivíduo toma decisões que não
são baseadas estritamente no modelo racional. Dessa forma, como como chegar a resultados
otimizados se o atual modelo é estruturado em uma gestão prescritiva e racional, que despreza
aspectos descritivos do comportamento humano derivados de questões comportamentais
(THALER, 2015)? Assim, o foco geral da pesquisa que originou este relatório técnico recai
sobre o estudo das ciências comportamentais na governança do setor público brasileiro. A
pesquisa foi realizada em duas etapas, por meio do método experimental, com manipulação
intencional de intervenções em grupos de comparação randomizados. A primeira parte teve
por objetivo investigar e descrever a manifestação de heurísticas e vieses comportamentais em
servidores da administração pública brasileira, em cenários de decisão sob condições de risco.
Na segunda etapa, o objetivo foi examinar a utilização do dissidente estratégico como
instrumento comportamental para evitar ou reduzir decisões enviesadas dentro do modelo de
governança do setor público. Foram analisados dados de 162 servidores de uma instituição
pública federal com sede no estado de Alagoas, que participaram da pesquisa entre os meses de
dezembro de 2022 e janeiro de 2023.

INSTITUIÇÃO/SETOR
O estudo foi realizado por meio de experimentos que contaram com a participação
de 241 servidores de uma instituição pública federal com unidades em todas as regiões do
estado de Alagoas. De acordo com os critérios de seleção adotados, apresentados no texto inicial
da pesquisa, foram considerados inválidos os dados de 79 servidores. Um respondente não
concedeu o consentimento necessário para participar da pesquisa e outros 78 não chegaram ao
fim do questionário ou podem ter terminado em um outro momento. Dessa forma, 162 respostas
foram consideradas válidas para a análise dos dados.

O estudo contou com a presença de grupos de comparação, atribuição aleatória e a
manipulação de variáveis, caracterizando-se como um experimento de laboratório, o qual
permite a manipulação de variáveis independentes com maior controle de variáveis estranhas
e, desta forma, tem maior validade interna (AGUIAR, 2017; AGUIAR; MUCCI; LIMA, 2022).
Outro ponto característico deste tipo de experimento é a escolha de participantes
por amostra definida de forma intencional, não probabilística, possibilitando a replicação, mas
reduz a validade externa, que se refere à possibilidade de generalizar os resultados da amostra
para a população que foi selecionada (AGUIAR, 2017; AGUIAR; MUCCI; LIMA, 2022)

PÚBLICO-ALVO DA INICIATIVA
São beneficiários desta pesquisa os servidores públicos que atuam na administração
pública brasileira, em órgãos diretamente ligados à União, estados, Distrito Federal e
municípios. No entanto, esse estudo precisa ser replicado em outros contextos organizacionais
para que as evidências possam representar diferentes regimes administrativos e, assim, possam
ser generalizadas.
DESCRIÇÃO DA SITUAÇÃO-PROBLEMA
A governança corporativa tem a finalidade de agregar valor às empresas e demais
instituições, de forma a assegurar o alcance dos objetivos organizacionais a todos os envolvidos
(GARZÓN CASTRILLÓN, 2021). Adaptada ao setor público, a governança tem o objetivo de
melhorar resultados institucionais pela prestação de serviços aos cidadãos ou por políticas
públicas (BRASIL, 2020).
A preocupação em seguir princípios, valores e ações de governança manifestou-se
depois de crises financeiras e escândalos que expuseram deficiências graves, arriscando o
sistema financeiro global e que também causaram insolvências (CLAESSENS, 2003). Então,
mecanismos foram formulados, políticas foram operacionalizadas e normas mais rígidas foram
criadas para estabelecer e monitorar a eficácia de controles internos, além da divulgação de
informações (GIACOMELLI et al., 2017).
Apesar desse cuidado e zelo, na implementação do modelo de governança no Brasil
não foi levada em consideração a racionalidade limitada do ser humano (BARRETO; VIEIRA,
2021; CAMPANÁRIO et al., 2014; CLAESSENS, 2003; CRISÓSTOMO; GIRÃO, 2019;
LEAL; CARVALHAL; IVERVOLINO, 2015; MATIAS-PEREIRA, 2010; PASCOAL;

OLIVEIRA, 2019; PECI; PIERANTI; RODRIGUES, 2008; SELL et al., 2018). A governança
corporativa adaptada à administração pública no Brasil segue princípios da Nova Gestão
Pública (New Public Management) (SECCHI, 2009), que tinha como objetivo transferir e
adaptar as práticas gerenciais do setor privado para o público, reduzindo a máquina
administrativa, aumentando sua eficiência e criando meios de responsabilizar agentes públicos
(MATIAS-PEREIRA, 2010). No entanto, tendo em vista a literatura levantada como referencial
teórico da pesquisa realizada, não foram considerados aspectos comportamentais que podem
viabilizar a tomada de decisões com menos heurísticas e vieses por parte dos servidores, o que
é tido como premissa do estudo que originou este relatório.
Dessa forma, acredita-se que pode haver um direcionamento para a consideração
de aspectos relacionados à estratégia comportamental, uma área que associa a psicologia
cognitiva e social à teoria e à prática da gestão de organizações (POWELL; LOVALLO; FOX,
2011). Uma escola de pensamento desse campo de estudo envolve conceitos de racionalidade
limitada, Teoria dos Prospectos, heurísticas e vieses (POWELL; LOVALLO; FOX, 2011) e
nesta temática há um número resumido de investigações relacionadas à administração pública,
sendo necessárias pesquisas para melhorar o processo de tomada de decisões no setor público
(BATTAGLIO et al., 2019; SANDERS; SNIJDERS; HALLSWORTH, 2018).
Diante da limitação da racionalidade do ser humano e suas decisões carregadas de
heurísticas e vieses, o estudo realizado buscou avançar na compreensão das relações entre as
ciências comportamentais e o modelo de governança corporativa adaptado ao setor público
brasileiro, com a finalidade de fomentar a discussão sobre a inclusão dos aspectos
comportamentais voltados para a otimização dos mecanismos de controle da governança
organizacional, considerando práticas de transparência e de compliance, relevantes para o
processo de tomada de decisão gerencial (CARVALHO et al., 2021; COSTA et al., 2020;
GIACOMELLI et al., 2017; LEAL; CARVALHAL; IVERVOLINO, 2015; ROSSETTI;
ANDRADE, 2022). Espera-se que as evidências encontradas possam nortear o desenho de
ações e rotinas que incluam a questão comportamental para evitar ou reduzir soluções
enviesadas, ao conter o pensamento de grupo, o viés de confirmação e a escalada de
compromisso entre servidores, principalmente em reuniões ou em decisões que são tomadas a
partir de algum tipo de conselho ou colegiado.
OBJETIVOS
O ponto de partida da pesquisa que originou esse relatório técnico, com base na

literatura, é a ausência de evidências sobre heurísticas e vieses em servidores da administração
pública brasileira. Assim, a primeira parte da pesquisa foi motivada pela seguinte questão:
Como servidores públicos brasileiros tomam decisões em condições de risco? Para
responder ao questionamento, o objetivo geral desta etapa foi investigar e descrever a
manifestação de heurísticas e vieses comportamentais em servidores da administração pública
brasileira, em cenários de decisão sob condições de risco, por meio da replicação do estudo
feito por de Belle’, Cantarelli e Belardinelli (2018).
A segunda etapa considerou as instituições públicas brasileiras de forma geral, que
seguem o modelo da governança pública e tratam o cidadão e outras organizações como
parceiros ou stakeholders (SECCHI, 2009). Um dos pontos a ser combatido nas instituições é
o julgamento tendencioso, como o pensamento de grupo, uma consonância que afasta ideias
conflitantes (JANIS, 1973), que também tem relação com o viés da confirmação, uma tendência
do indivíduo ou um grupo que age em busca de evidências para justificar informações ou
crenças já possuídas (NICKERSON, 1998). Outro fator que pode enviesar decisões é a escalada
de compromisso, a tendência em responder ao fracasso persistindo na ação ou até mesmo
intensificando a perda de recursos, como tempo e dinheiro (GREITEMEYER; SCHULZHARDT; FREY, 2009; STAW, 1976).
Nesse sentido, para atenuar ou mesmo evitar o pensamento de grupo, o viés de
confirmação e a escalada de compromisso, a literatura recomenda a utilização do dissidente
estratégico, como meio de iniciar um conflito programado na tomada de decisões, para reduzir
dissidências pessoais e assegurar uma estrutura de decisão abrangente (AKHMAD; CHANG;
DEGUCHI, 2021; COSIER; SCHWENK, 1990; JANIS, 1973; MACDOUGALL; BAUM,
1997; SIMS, 1992). Assim, a segunda parte da pesquisa, pretendeu responder à seguinte
pergunta: Qual o impacto do dissidente estratégico no processo de decisão dentro do
modelo de governança pública? Para esta etapa, o objetivo geral foi analisar a utilização do
dissidente estratégico como instrumento comportamental para evitar ou reduzir decisões
enviesadas dentro do modelo de governança do setor público.
ANÁLISE/ DIAGNÓSTICO DA SITUAÇÃO-PROBLEMA
O estudo foi realizado pelo método experimental, com a manipulação intencional
de variáveis independentes em grupos de comparação randomizados, que contou com a
participação de 162 servidores de uma instituição pública federal com sede no estado de
Alagoas. O perfil sociodemográfico dos participantes mostrou que 41,36% são do sexo

feminino, a idade média dos respondentes é de 42,7 anos e o tempo médio de atuação no setor
público é de 15 anos. A maioria também afirmou que concluiu ao menos a graduação e uma
especialização (91,98%).
Os resultados da primeira etapa da pesquisa sugerem que agentes públicos
brasileiros são influenciados pelo efeito de enquadramento, pela heurística da ancoragem, pelo
viés da dominância proporcional e pelo viés da dominância assimétrica. Não foram encontrados
indícios do viés do status quo durante os experimentos. Na segunda etapa da pesquisa, um
cenário formado por um grupo de pessoas cujas opiniões são divergentes não foi suficiente para
criar a dissonância cognitiva capaz de reduzir o viés de confirmação, o pensamento de grupo e
a escalada de compromisso. No entanto, foram encontradas evidências de que a utilização do
dissidente estratégico modificou a escolha dos servidores participantes da pesquisa, impedindo
ou minimizando a manifestação de vieses no ambiente organizacional da governança pública.
Além disso, a idade, o tempo de trabalho e o sexo dos servidores que participaram da pesquisa
não tiveram influência sobre a ação do dissidente.
Concluiu-se que servidores públicos brasileiros participantes do estudo científico
não seguiram estritamente o modelo racional em suas escolhas, violando a Teoria da Utilidade
Esperada, e que a utilização do dissidente estratégico foi necessária para reduzir decisões
enviesadas que poderiam impactar ações na governança pública.
RECOMENDAÇÕES DE INTERVENÇÕES
A pesquisa que originou este relatório almejou colaborar profissionalmente para
nortear o desenho de práticas e rotinas na governança de instituições públicas. Primeiro,
investigando e descrevendo a manifestação de heurísticas e vieses comportamentais em
servidores públicos participantes dos experimentos.
As evidências mostram a força dos fenômenos comportamentais apesar de
diferenças no contexto organizacional. Elas também contribuem ao auxiliar os tomadores de
decisão. Acredita-se que manifestações de limitações cognitivas podem alertar servidores e a
própria gestão pública a levantar questionamentos sobre a arquitetura de escolhas que ajudem
a otimizar decisões sobre políticas públicas e a alocação de recursos públicos em benefício da
população.
Em uma segunda etapa, esta pesquisa buscou colaborar com a investigação da
utilização do dissidente estratégico, a fim de afastar vieses cognitivos e otimizar a decisão
gerencial pelo maior debate e consideração de ideias a serem aplicadas em ações de

transparência e compliance. A medida também visa combater interesses de grupos ou interesses
privados e, consequentemente, melhorar a formulação, implementação e avaliação de políticas
públicas, o contato com os stakeholders e a prestação de serviços à população.
Dessa forma, acredita-se que será possível chegar mais próximo dos resultados
esperados pelo modelo pós-burocrático de governança pública, marcado por diretrizes
corporativas adaptadas à administração pública, conforme a Nova Gestão Pública e sua busca
por eficácia e eficiência na alocação de recursos públicos.
Por ser fruto de experimentos com amostragem não probabilística e definida de
forma intencional, os resultados da pesquisa são limitados aos servidores públicos pertencentes
a uma instituição federal com sede em Alagoas, portanto não sendo passíveis de generalização.
No entanto, o estudo parte do pressuposto de que as respostas dos participantes simulam
decisões a serem tomadas em situações reais, independente da organização pública à qual está
inserido. E reforça que novas pesquisas podem melhorar a compreensão dos processos de
decisão para a gestão pública, além de serem necessárias para que os resultados possam ser
somados ao corpo de evidências empíricas para a obtenção de um diagnóstico mais amplo dos
fenômenos comportamentais na administração pública.
RESPONSÁVEIS E CONTATOS
ELAINE CRISTINE RODRIGUES DOS SANTOS (elaine.rodrigues@feac.ufal.br)
Mestranda em Administração Pública
Universidade Federal de Alagoas
PROF. DR. RODRIGO VICENTE DOS PRAZERES (rodrigovprazeres@gmail.com)
Orientador do trabalho
Universidade Federal de Alagoas
DATA DE REALIZAÇÃO DO RELATÓRIO: março de 2023.

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